Mateus, o Apóstolo Evangelista
Personagens

Mateus

O publicano de Cafarnaum que Jesus chamou da mesa de impostos para se tornar apóstolo e autor do primeiro Evangelho do Novo Testamento.

Quem Foi Mateus?

Mateus era publicano — um cobrador de impostos a serviço do Império Romano. Na sociedade judaica do século I, essa era uma das ocupações mais desprezadas e moralmente suspeitas: os publicanos eram vistos como traidores que se enriqueciam às custas de seu próprio povo, colaborando com o poder estrangeiro que oprimia Israel. Eram excluídos das sinagogas, equiparados a pecadores e prostitutas, e socialmente isolados da vida religiosa judaica.

Era nesse contexto de exclusão que Mateus exercia seu ofício na coletoria de Cafarnaum — a movimentada cidade às margens do Mar da Galileia, principal base do ministério de Jesus. Ali, sentado à sua mesa de impostos, ele recebeu o chamado que mudaria não apenas a sua vida, mas a história do Cristianismo.

Um detalhe revelador: ao escrever seu próprio Evangelho, Mateus não esconde sua origem humilhante. Nas listas dos doze apóstolos, enquanto Marcos e Lucas simplesmente o chamam de "Levi" ou "Mateus", o próprio Mateus acrescenta: "Mateus, o publicano" (Mt 10:3). É um ato de humildade deliberada — o reconhecimento de que a graça de Deus alcançou alguém que a sociedade havia descartado.

O Chamado: "Segue-me"

O chamado de Mateus é narrado com notável concisão nos três Evangelhos sinóticos. Jesus passa pela coletoria, vê Mateus sentado à mesa de impostos e diz apenas duas palavras:

"Segue-me." E ele se levantou e o seguiu.

Mateus 9:9

A brevidade do relato é eloquente. Não há hesitação, não há negociação, não há condições. Mateus simplesmente se levanta — deixando para trás a mesa, os registros, o dinheiro, a segurança financeira que sua profissão lhe garantia — e segue Jesus. Para um publicano, abandonar o posto significava perder tudo sem possibilidade de retorno: Roma não tolerava deserções.

Em seguida, Mateus oferece um grande banquete em sua casa, reunindo publicanos e pecadores ao redor de Jesus — um gesto de celebração e de evangelização espontânea. Os fariseus escandalizaram-se. A resposta de Jesus tornou-se uma das frases mais memoráveis dos Evangelhos:

"Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. Não vim chamar os justos, mas os pecadores."

Mateus 9:12-13

O Evangelho de Mateus

A tradição cristã antiga, confirmada por testemunhos como os de Papias de Hierápolis (séc. II) e Ireneu de Lyon, atribui a Mateus a autoria do primeiro Evangelho do Novo Testamento. Eusébio de Cesareia registra que Mateus teria inicialmente pregado em hebraico (ou aramaico) para os judeus da Palestina, e que seu Evangelho foi composto nessa língua antes de ser traduzido para o grego.

O Evangelho de Mateus é o mais judaico dos quatro: organizado em torno de cinco grandes discursos — em eco deliberado aos cinco livros de Moisés —, ele apresenta Jesus como o novo Moisés, o cumprimento de toda a Lei e os Profetas. Possui mais de sessenta citações explícitas do Antigo Testamento, com a fórmula recorrente "para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta". A genealogia inicial remonta a Abraão, ancorando Jesus na promessa feita ao pai de Israel.

Entre os textos mais preciosos preservados por Mateus estão o Sermão da Montanha (Mt 5–7), o discurso missionário (Mt 10), as parábolas do Reino (Mt 13), o discurso eclesial (Mt 18) e o discurso escatológico (Mt 24–25). O Evangelho se encerra com o Grande Mandato:

"Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."

Mateus 28:19

Mateus na Igreja Primitiva

Após a Ressurreição e o Pentecostes, Mateus aparece entre os apóstolos reunidos no Cenáculo (At 1:13). As tradições sobre sua atividade missionária posterior variam, mas convergem na indicação de que ele pregou primeiro entre os judeus da Palestina, antes de se dirigir a outros povos. Eusébio de Cesareia menciona que Mateus partiu para terras distantes após Tiago, o Justo, assumir a liderança da comunidade de Jerusalém.

A tradição mais difundida o associa à Etiópia — não a Etiópia moderna, mas a região que os gregos chamavam assim, possivelmente identificada com partes da Arábia ou África Oriental. Outras tradições o situam na Pérsia e na Macedônia. Em todas elas, o publicano de Cafarnaum aparece como pregador incansável, usando sua habilidade com documentos e registros a serviço do Evangelho que escreveu.

O Martírio e o Legado

A tradição mais antiga afirma que Mateus morreu como mártir, embora o local e o modo do martírio variem entre as fontes. A versão mais difundida, especialmente no Ocidente, situa seu martírio na Etiópia, por espada ou lança, após confrontar o rei local por sua conduta moral. Seus restos mortais são venerados na Catedral de Salerno, no sul da Itália, para onde foram trasladados no século X.

Na iconografia cristã, Mateus é representado pelo símbolo do homem alado — ou simplesmente do homem —, terceiro símbolo do tetramorfos descrito em Ezequiel e no Apocalipse. O símbolo reflete o início humano e genealógico de seu Evangelho, que começa com a humanidade de Jesus através da linhagem de Abraão.

O legado de Mateus é duplo e inseparável: o apóstolo que abandonou tudo ao primeiro chamado, e o evangelista que garantiu que as palavras de Jesus chegassem a todas as nações por escrito. O homem que Roma havia recrutado para registrar dívidas acabou registrando, para a eternidade, a maior história já contada.